Conhecimento técnico profundo e atuação multidisciplinar: é isso que as empresas procuram no profissional
Com avanço da IA e equipes mais enxutas, empresas valorizam trabalhadores que combinam conhecimento técnico profundo, visão de negócio e capacidade de atuar em diferentes frentes
Por Patrícia Basilio
04/06/2026 07h00 Atualizado 04/06/2026 18h33
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A mudança nas exigências das empresas aparece no estudo global Talent Trends 2026, divulgado no fim de maio pela Michael Page. De acordo com o levantamento, 57% dos gestores brasileiros veem a escassez de habilidades como o principal desafio de contratação. Outros 21% afirmam priorizar competências — como adaptabilidade e capacidade de atuar em diferentes frentes — acima da formação acadêmica e do histórico profissional.
Com equipes mais enxutas e menos vagas de nível júnior, as companhias têm buscado profissionais capazes de entregar mais do que uma especialidade. Nesse cenário, ganha força a chamada carreira em T: trabalhadores que combinam conhecimento técnico profundo em uma área com a capacidade de atuar de forma multidisciplinar, transitando por diferentes funções, tecnologias e problemas de negócio.
O termo, do inglês “T-Shaped”, surgiu na década de 1990, associado à consultoria McKinsey & Company, que o usava para descrever profissionais cada vez mais demandados pelo mercado. O conceito ganhou maior projeção em 2005, com Tim Brown, então CEO da IDEO, empresa de design e inovação fundada no Vale do Silício, nos EUA. Duas décadas depois, em meio à corrida das empresas para incorporar a inteligência artificial, esse perfil volta ao centro das discussões sobre o futuro do trabalho.
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Segundo Lucas Oggiam, diretor-executivo da Michael Page, a carreira em T está mais ligada às habilidades do profissional do que ao desenho da hierarquia corporativa. Diferentemente da carreira em Y, que permite escolher entre uma trilha de liderança ou uma trajetória técnica, o modelo em T combina profundidade em uma área específica com capacidade de atuar em frentes mais generalistas ou de negócio, como vendas e finanças.
“Com o crescimento dos níveis médio e sênior nas empresas, tenho recebido muitos contatos de companhias em busca de profissionais técnicos e experientes, mas que também sejam capazes de resolver problemas mais amplos, inclusive demandas que antes eram absorvidas por profissionais juniores e hoje contam com o apoio da inteligência artificial”, afirma.
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Diferentes áreas
Apesar da origem associada ao Vale do Silício, a carreira em T não se limita ao setor de tecnologia, afirma Oggiam. “Cada vez mais as empresas enxergam a necessidade de contratar profissionais com múltiplas habilidades. Especialistas técnicos continuam sendo importantes, mas dentro de times mais diversos, formados também por pessoas curiosas e abertas a trabalhar em diferentes frentes”, diz.
A WideLabs, empresa de infraestrutura e inteligência artificial, é um exemplo desse movimento. Segundo Everton Behenck, diretor de criação da companhia, a empresa estimula todos os profissionais a serem “donos” dos produtos em que atuam, acompanhando desde a construção da solução até a compreensão de seu valor financeiro e sua chegada ao mercado.
“Tenho uma funcionária que trabalha com UI (interface do usuário) e já fez vídeos dos nossos produtos e trabalhou em nossas redes sociais. Isso fortalece o trabalho e a posição dela porque parte do meu trabalho como diretor de criação é garantir que todas as manifestações da nossa marca tenham coerência”, diz.
Na Red Hat, empresa norte-americana subsidiária da IBM, a carreira em T também aparece no desenho das equipes. Andrea Cavallari, diretora de tecnologia (CTO) para a América Latina, afirma que o profissional precisa ter uma área de especialização, mas também ser capaz de “falar do todo” e compreender a complexidade do negócio.
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A própria trajetória da executiva reflete esse movimento. Com origem em infraestrutura, redes e data centers, Andrea acompanhou a evolução da tecnologia de servidores físicos para virtualização, nuvem e hiperescala. Hoje, a conversa com clientes vai além da escolha técnica. “Eu tenho que falar qual tecnologia traz a melhor redução de custo, o melhor benefício para o negócio e a melhor preparação para a empresa crescer e escalar”, afirma.
Complexidade do trabalho
Para ela, a demanda por esse perfil cresce porque a tecnologia ficou mais variada, enquanto as equipes se tornaram mais enxutas. Nesse cenário, o profissional precisa aprender rápido, dominar diferentes disciplinas técnicas e, ao mesmo tempo, desenvolver visão de negócio, de custos e de pessoas.
“Se você ficar preso em apenas uma caixinha, não consegue navegar em toda a complexidade da empresa”, diz.
A executiva também vê a inteligência artificial como um fator que eleva a régua para os profissionais. Na avaliação dela, parte das atividades mais repetitivas, antes associadas a cargos de entrada, já pode ser feita com apoio de IA. Isso aumenta a demanda por profissionais plenos e seniores, capazes de validar respostas, revisar entregas e tomar decisões com pensamento crítico. “A inteligência vai ser você. A IA vai fazer o trabalho braçal, repetitivo, que a gente não quer mais fazer”, afirma.
Fonte: https://epocanegocios.globo.com/futuro-do-trabalho/noticia/2026/06/carreira-em-t-reducao-de-vagas-junior-estimula-busca-por-profissionais-multidisciplinares.ghtml
